
Gostaria de poder começar esse post assim, gostaria mesmo. Mas a realidade é que acima de mim há o teto da varanda. Moro no terceiro andar de um prédio, e a varanda cheia de flores do quarto andar é o que cobre minha cabeça. Não que fizesse diferença, na verdade, já que não consigo ver estrela nenhuma. O céu está coberto por nuvens - ou seria fumaça? É espessa e rosada, um rosa desbotado e sem graça. Vejo a lua, sim, de tempos em tempos. É lua crescente, o que me lembra As Brumas de Avalon. Em breve será lua cheia, e aquele sentimento estranho inundará meu peito por alguns dias consecutivos. Nada de especial nisso também, na realidade, já que me sinto diferente em todas as fases da lua. Aprendi a observá-la, a calcular suas mudanças e quase posso sentir, como Morgana, essas mudanças correndo em minhas veias.
Mas o que eu dizia?
Perdi a linha de pensamento. Se é que existia algum, é claro, já que grande parte do que eu escrevo nasce no nada e morre no vazio. O que não é surpreendente, já que essa poderia muito bem ser a descrição dos meus dias.
A mão que segura o cigarro treme. Levo aos lábios aquilo que é o motivo de eu estar sentada na varanda. Inspiro. Parei de fumar por quatro meses, entre o fim de 2009 e o começo de 2010. E voltei por vontade, não por necessidade. As pessoas normalmente não entendem essa minha razão, mas a verdade é que o cigarro é meu amigo. Ele me preenche; a fumaça que entra em meus pulmões e aumenta minhas chances de ter um câncer parece-me mais útil do que o vazio costumeiro que aumenta minhas chances de suicídio. Meu cigarro é meu amigo, meu companheiro fiel. Na madrugada, entre folhas soltas com frases rabiscadas, Fiona Apple e desespero, ele está lá. Ao contrário do resto do mundo, que dorme.
São Paulo.
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi / Da dura poesia concreta de tuas esquinas / Da deselegância discreta de tuas meninas (...) Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto (...) E os novos baianos passeiam na tua garoa / E novos baianos te podem curtir numa boa.
Eu amo esta cidade.
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