
Nada se move. Não há vento, não há uma brisa que seja. Tudo está tão imóvel quanto uma pedra costuma estar. O ar, estagnado, não tem temperatura. Não está frio, tampoco calor; não existe nenhum termômetro para medir esse fenômeno, pois ele só existe nos sentidos. Mais especificamente, nos meus sentidos.
Não sei o que as outras pessoas estão sentindo. Não sei se percebem como o dia está morto, estéril. Algumas crianças que posso ver pela varanda estão rindo e brincando com uma enorme bola vermelha. É provável que estejam com calor. A mulher do primeiro andar do bloco ao lado do meu veste uma blusa azul de manga comprida. Talvez não esteja exatamente com frio, mas calor tenho certeza que ela não sente.
Meu cigarro acabou, meu suco acabou, a música parou e a única coisa que ainda está em movimento são meus dedos. Tec, tec, tec. Batem no teclado rapidamente, como se seguissem uma coreografia há muito ensaiada e repetida. As palavras, a ordem delas, tudo isso suponho que seja novo. Mas o tema é o mesmo, e meus dedos acostumaram-se a isso.
Vinte e um de julho de dois mil e seis foi quando comecei O Blog. Não este, obviamente, mas O Blog, o Interruptedlines. E desde aquele dia até o presente, habituei-me a escrever publicamente sobre o que sinto e o que deixo de sentir. E esses sentimentos, ou a falta deles, variaram de intensidade, de frequência e de motivos, mas continuam basicamente os mesmos.
O vazio, o maior dos meus problemas, não me abandona há anos. É o meu demônio mais fiel, mais dedicado. Se por vezes parece que foi embora, não faz realmente diferença; está ali, escondido nas sombras, preparando uma emboscada. Usa como artifício essa brincadeira de esconde-esconde, faz-me acreditar que desistiu de mim, faz-me acreditar que estou livre. E então, quando penso estar nas alturas, ele sai daqueles becos escuros e me mostra que continuo tão afogada no meu mar de desespero quanto sempre estive.
E vocês sabem que eu não sei nadar.
E assim o dia vai terminando. O fim de mais um dia, o fim de mais um mês, o fim de mais uma tentativa. O que fiz? Que progresso tive? Que caminho tomei, que alívio senti, que esperança sentei agarrar?
Nada, nada, nada! Morta, seca, vazia até o tutano dos ossos.
Um poço vazio.
Cheio até a borda.






